A UNIVERSIDADE NECESSÁRIA:
ANISIO TEIXEIRA E DARCY RIBEIRO
OS INTELECTUAIS DA AÇÃO.
Silvio
Claudio Souza
Mestre em Educação/UERJ
Coordenador de Prática de Ensino da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro -UERJ/Cederj
e-mail: sina7@ig.com.br
Lia
Ciomar Macedo de Faria
Doutora em Educação/UFRJ
Profa.da Pós-graduação em Educação da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro -UERJ/PROPed
e-mail: liafaria@terra.com.br
Introdução
Este
trabalho objetiva a análise do ideário republicano de Anísio Teixeira e Darcy
Ribeiro e de como as suas trajetórias de atuação na área pública
ressignificaram as políticas educacionais. O percurso desses dois educadores foi construído pelo pensamento e pela
ação, sendo que a criação da Universidade do Distrito Federal (UDF) e da Universidade
de Brasília (UnB) sintetizaram a coerência entre suas produções intelectuais e
suas ocupações em cargos públicos e políticos, materializando, assim, suas
idéias.
Desta
forma, por um lado Anísio com a criação (1935-1939) da UDF gerou fortes reações da intelectualidade ligada
às alas mais conservadoras da época. Por outro lado, Darcy encarregado do
planejamento da UnB, em 1959, reforçou a questão de transformar a educação, por
meio de uma reflexão pedagógica, a partir de um projeto de nação que desenvolvesse
universidades públicas comprometidas com o processo democrático e a justiça
social.
A pesquisa destaca, ainda, a
contribuição do antropólogo Darcy Ribeiro em suas reflexões e ações na implantação de universidades latino-americanas, inspirado em sua utopia
de uma América Latina integrada, como uma Pátria Grande e, nesse
contexto, o projeto de Universidade Necessária.
Anísio
Teixeira e Darcy Ribeiro: a trajetória e as afinidades dos educadores da ação.
Na análise da trajetória desses dois
educadores, indicaremos em um primeiro momento, suas relações de pertencimento
e locais de atuação. Anísio Espínola Teixeira (1900-1971), formou-se em
ciências jurídicas e sociais no Rio de Janeiro em 1922. Entre 1924 e 1928, foi
diretor-geral de instrução do governo da Bahia e promoveu a reforma do ensino
naquele Estado.
Um dos principais
idealizadores da universidade pública brasileira foi Anísio teixeira,
secretário de Educação no governo do prefeito Pedro Ernesto. Coube a ele
fundar, em 1935, a Universidade do Distrito Federal (UDF), que no seu breve
período de existência (de 1935 a 1939) assumiu o papel de pólo educacional e
cultural da cidade do Rio de Janeiro. Ele dava uma grande ênfase à natureza e a função libertadora da
universidade, a mansão da liberdade,
segundo suas palavras:
A universidade é, em essência, a
reunião entre os que sabem e os que
desejam aprender. Há toda uma iniciação a se fazer. E essa iniciação, como
todas as iniciações, se faz em uma atmosfera que cultive,
sobretudo, a imaginação... Cultivar a imaginação é cultivar a capacidade de dar sentido e significado às
coisas. A vida humana não é o transcorrer monótono de sua rotina quotidiana, a
vida humana é, sobretudo, a sublime inqueitação de conhecer e de fazer. É essa inquietação de compreender e de aplicar que encontrou afinal sua
casa. A casa onde se acolhe toda a nossa sede de saber e toda a nossa sede de
melhorar é a
universidade. (TEIXEIRA, 1988, p.36)
Defensor
da universidade pública, Anísio pregava o pleno exercício da liberdade de
pensamento, pela garantia da autonomia universitária. Para ele, “a matriz para
a criação da identidade de um povo e do caráter nacional é a universidade”.
De acordo com suas palavras,
a Universidade que se inaugura tem como preocupação preparar quadros
intelectuais e acabar com o isolamento intelectual. Nessa perspectiva, cabe a
universidade sair desse isolamento, porque a ela compete “socializar a cultura,
socializando os meios para adquiri-la. A identidade de processos, a identidade
de vida e a própria unidade local farão
com que nos cultivemos, em sociedade”. Para Anísio, uma das exigências para a
concretização de tal proposta é sem dúvida o
exercício da liberdade.
Entretanto,
o sonho da UDF durou pouco, pois Gustavo Capanema, ministro da educação do
governo Getúlio Vargas, apressaria o fim da UDF, inaugurando a Universidade do
Brasil (UB), para centralizar e controlar o ensino superior. O autoritarismo
característico do Estado Novo (1937-45) comprometeu a expansão universitária. A
Universidade do Brasil, baseada em um modelo de universidade que apenas reúne
um conjunto de escolas profissionalizantes, passa a se constituir no único
aparelho universitário do país, funcionando com o mesmo padrão de centralização
burocrática de toda a máquina adminsitrativa do governo. Ao mesmo tempo, com a
demissão do prefeito Pedro Ernesto, iniciou-se o processo de extinção da UDF.
Na década de 1950, foi
secretário-geral da Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (Capes) e dirigiu o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP).
Em 1963 foi nomeado reitor da Universidade de Brasília (UnB), mas foi afastado
do posto em 1964, em virtude do golpe militar que derrubou o presidente João
Goulart.
Darcy Ribeiro (1922-1997), Iniciou sua
trajetória acadêmica na Faculdade de Medicina (1939), entretanto, sem vocação
para a carreira médica, abandonou a faculdade em 1943 e iniciou a Escola de
Sociologia e Política (SP), graduando-se em 1946. Em 1947 ingressou no Serviço de Proteção ao
Índio (SPI), travando contato com o marechal Cândido Mariano Rondon, então
presidente do Conselho Nacional de Proteção ao Índio. Nos anos seguintes, seus
estudos etnológicos levaram-no a viver longos períodos entre comunidades
indígenas.
Com
a eleição de Juscelino Kubitschek, em outubro de 1955, para a presidência da
República, Darcy Ribeiro foi convidado a colaborar na elaboração das diretrizes
para o setor educacional do novo governo, trabalhando com o pedagogo Anísio
Teixeira. Nessa época deixou a direção da seção de estudos do SPI e passou a
integrar o corpo docente da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do
Brasil.
Designado
por Anísio Teixeira dirigiu, em 1957, a divisão de estudos sociais do Centro
Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), vinculado ao Ministério da
Educação. Em 1959, por decreto presidencial, Darcy foi encarregado de planejar
a montagem da Universidade de Brasília (UnB). Em 1961, com a inauguração da
UnB, foi nomeado seu primeiro reitor. Em agosto de 1962 assumiu o Ministério da
Educação e Cultura, deixando a reitoria da UnB, onde foi substituído por Anísio
Teixeira. Em janeiro de 1963, por ocasião do retorno do país ao regime
presidencialista, deixou o Ministério para assumir a chefia do Gabinete Civil
da Presidência da República. Após esse breve relato biográfico, iremos
articular o processo político nacional com as atuações desses dois educadores
no movimento dos pioneiros da educação.
Durante
o primeiro governo Vargas (1930-45) avançou o
processo de montagem de um sistema educacional. Os educadores pioneiros tiveram
papel relevante na defesa de um sistema nacional de educação, e o pós-1930
acabou se constituindo em um verdadeiro palco de disputa de orientações para a
definição dos rumos da educação no país. Os renovadores tiveram suas propostas
vencidas, e o período pós-1935, início do autoritarismo que teria no Estado
Novo (1937-45) sua manifestação formal, atingiu diretamente Anísio Teixeira.
Após a revolta comunista de novembro e a prisão do prefeito do Rio, Pedro
Ernesto, sob acusação de envolvimento com a Aliança Nacional Libertadora (ANL),
Anísio é então destituído da função de secretário-geral de Educação e Cultura
da capital federal.
Os pioneiros estavam no centro das
discussões. Tinham suas propostas formuladas desde a década de 1920 e
expressaram publicamente seu ideário no Manifesto dos Pioneiros da educação
nova[1], publicado
em 1932, redigido por Fernando de Azevedo e assinado por 26 educadores
brasileiros integrantes do movimento de “renovação nacional”, que defendiam com
fervor cívico a escola pública, gratuita, laica e universal.
Tendo em vista a Campanha de Defesa da Escola Pública, desencadeada no
final da década de 50, uma “nova edição” do Manifesto, veio a público em 1959.
Diferentemente de 1932, o “Manifesto de 1959” não se preocupou com
questões didático-pedagógicas, admitiu válidas as diretrizes de 1932 e buscou
um foco nas questões gerais de política educacional. Apregoava que o ensino
público pelo fato de ser obrigatório e gratuito, era democrático e possibilitava,
de um lado, às camadas populares uma via de acesso à participação na vida
econômica, de forma menos discriminante, mais justa, de outro, acenava com a
possibilidade de participação mais consciente, e de bases mais amplas,
afirmando, pois, o aspecto social da educação, conclamando o Estado a assumir
seus deveres democráticos de mantenedor do sistema escolar e construtor da
identidade nacional. Segundo Simon Schwartzman (1984):
O movimento da Escola
Nova, sem se constituir em um projeto totalmente definido, estruturava-se ao
redor de alguns grandes temas e de alguns nomes mais destacados. A escola
pública, universal e gratuita ficaria como sua grande bandeira. A educação
deveria ser proporcionada para todos, e todos deveriam receber o mesmo tipo de
educação. (...) Este ensino seria, naturalmente, leigo. Sua grande função era,
em última análise, formar o cidadão livre e consciente que pudesse
incorporar-se, sem tutela de corporações de ofícios ou organizações sectárias
de qualquer tipo, ao grande Estado Nacional em que o Brasil estava se
formando.(p.53)
Um dos grupos em defesa da escola pública girou em torno de Anísio
Teixeira, e inspirava-se na filosofia liberal pragmatista de John Dewey.[2] Esse movimento escolanovista influenciou diretamente Darcy Ribeiro e o
transformou em um dos seus herdeiros mais ilustres, empunhando esta bandeira
renovadora até o final de sua vida, em fevereiro de 1997. Essa afinidade entre Anísio e Darcy pelos
ideais renovadores é ressaltada por Bomeny (2003, p.11): “Darcy deixa em suas
memórias e correspondências as confissões de afinidade com o educador e
filósofo Anísio Teixeira, o programa de democratização educativa e os ideais da
Escola Nova”.
Neste
contexto de defesa da escola pública, laica, universal, republicana e gratuita,
é importante frisar que o nome de Anísio esteve associado não só aos ideais do
movimento da Escola Nova[3] no Brasil, mas também às instituições de ensino superior
como a Universidade do Distrito Federal (1935-39), à Campanha Nacional de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), em 1951, à direção do
Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep) e, em 1955, à criação do
Centro Brasileiro de Estudos Educacionais (CBPE). Foi também um dos principais
idealizadores da Universidade de Brasília (UnB), em 1961.
Cabe
reforçar que para esses dois intelectuais, a escola pública era a força motriz
para pensarmos a sociedade, como dizia Darcy Ribeiro “a escola pública é a
maior invenção do mundo, pois permite que todos os homens sejam herdeiros das
bases do patrimônio mundial mais importante que é a cultura” (BOMENY, 2003,
76).
Entre a segunda década de 1940 e a
primeira metade de 1950, mudanças significativas, no plano macro da organização
política-econômica do Brasil e do mundo se fazem notar, com reflexos nos vários
micro-espaços sociais. No plano
nacional, a promulgação da Constituição de 1946, acena com a promessa de
construção no Brasil de uma ambiência sócio-político, pautada no respeito aos
direitos e garantias individuais e à liberdade de pensamento e expressão.
Neste cenário, ocorre a pressão para a
ampliação do sistema educacional, conforme nos indica Bomeny (2003):
O
contexto democratizante do pós-guerra legitima a demanda de benefícios
educacionais a segmentos maiores da população. O sentido estritamente
pragmático conferido à educação como qualificação de mão-de-obra vai sendo
ampliado em uma dimensão política de mais acesso da população carente aos
benefícios públicos garantidos em um Estado de Bem-estar.(p.35)
Entretanto, será nas décadas de 50-60,
que a demanda por participação política e social ganha fôlego e abre espaços
para se pensar um projeto de educação nacional. Conforme assinalam os estudos do historiador Eric Hobsbawn (1995), após a
II Guerra Mundial, o sistema capitalista tenta conciliar o liberalismo
econômico com os preceitos políticos da social-democracia. Essa nova concepção do mundo do capital se configura,
nos dizeres do autor, como uma “Era de Ouro”, que passou a simbolizar o período
que compreende o chamado pós-guerra até a década de 1970.
A
idealização desses novos tempos decorre, em grande medida, do desenvolvimento
no campo da industrialização. Nesse período, viabiliza-se a crença na
possibilidade do progressivo desenvolvimento do país, envolvendo diversos
segmentos, como a cultura e a educação, assim como os campos político e
econômico. Dentro desse cenário, a participação política via educação parecia ser um
caminho promissor.
Ao considerar o contexto
mundial e nacional de possibilidades “concretas”, Darcy aprofunda a questão teórica
de Anísio, para forjar o intelectual do
“fazimento”. Destacamos essa influência
tão marcante, nas próprias
palavras de Darcy: “Se
me perguntassem pelo encontro mais importante de minha vida, eu diria que foi o
nosso encontro”. Sua trajetória confirma essa afirmação. Defensor das causas
sociais e convencido de que o papel do intelectual implica em uma ação direta
no corpo social, Darcy Ribeiro levaria a Anísio Teixeira o conteúdo social e o
fervor militante para desenvolver projetos e programas que o pioneiro mantinha
em pauta desde a década de 1920.
O que se observa
é que o encontro dessas duas personalidades foi possível pela paixão
reformadora que os animava e pela afinidade em defesa da educação pública. Tal
aliança se consolidou no movimento em defesa da escola pública e na feitura da
nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional só sancionada em 1961,
depois de longo período no Congresso Nacional (1948-61).
O texto reforça mais uma vez, que a
influência de Anísio Teixeira na concepção de mundo de Darcy Ribeiro é
inegável, conforme sua própria declaração (1984):
Aprendi
com o mestre Anísio Teixeira – e a duras penas tento cumprir este preceito –
que o compromisso do homem de pensamento é com a busca da verdade. Quem está
comprometido com suas idéias e a elas se apega, fechando-se à inovação, já não
tem o que receber nem o que dar. É um
repetidor. Só pode dar alguma contribuição quem está aberto ao debate. (p.3)
E ao rever a trajetória de
ambos, podemos afirmar que Darcy cumpriu uma agenda pública que lhe foi
desenhada com régua e compasso por Anísio Teixeira: “O senhor não avaliará o quanto eu lhe devo e
como sou consciente de que em educação nada mais fiz do que pôr meu dínamo de
agitação, zumbindo em torno de suas idéias”. (Bomeny, 2003, p. 72)
Por
outro lado, a visão de escola pública republicana de Darcy pressupõe outros
aspectos ligados às bases do desenvolvimento democrático da nação. Em seu
discurso “a educação é um instrumento de revolução”, tem como idéia-força a
edificação do autoconhecimento nacional. Assim, sendo, demonstra uma
preocupação central na reorganização do Estado brasileiro, buscando a
identidade nacional e denunciando o sistema de dominação existente em nosso
país. Sua preocupação em reformar a educação consiste na construção
educacional, por meio de uma reflexão pedagógica sobre um projeto de nação que
possibilitasse o pleno exercício da cidadania.
Se
hoje parece óbvia a importância da educação no processo de desenvolvimento e
democratização do país, não se pode negar a contribuição de Anísio e Darcy, que
defenderam até o final de suas vidas essa idéia “revolucionária”. Suas idéias foram postas em prática por meio
da publicação de livros, alcançaram vários cargos públicos, fizeram reformas
educacionais em vários Estados e municípios, ocuparam durante bom tempo a
direção do sistema educacional do Distrito federal (Rio de Janeiro), promoveram
a hegemonia de suas idéias através de órgãos de imprensa etc. A partir dessa
ánalise pode-se dizer, portanto, que boa parte do pensamento educacional
brasileiro consubstanciou-se no escolanovismo. As falas de Anísio Teixeira e
Darcy Ribeiro, dentre outros, podem ser tomadas como paradigmas e, muito
provavelmente, refletiram o pensamento de centenas de educadores que nos anos
40, 50 e 60, redefiniram suas posturas teóricas.
A América Latina e a Universidade
Necessária
A
questão é saber se aos povos da América Latina interessa salvar os poucos que
são ricos ou construir uma sociedade habitável e justa, com escolaridade, duração,
qualidade e nível de estudos igual para todos.
Manuel Sadosky
Muitas transformações sacudiram
e continuam a sacudir a América Latina nos últimos vinte ou vinte e cinco anos,
a começar pela volta dos militares aos quartéis, pelo estabelecimento gradativo
de uma “sociedade democrática” (em que ainda imperam gritantes desigualdes
econômicas e sociais) e, também, pelas crescentes dificuldades enfrentadas por
quase todos os países da região no que se refere aos respectivos balanços de
pagamento e à amortizacao de seus
empréstimos externos.
Se acrescentarmos a esse
cenário a globalização econômico-financeira e a “mundializacao da cultura”, bem
como o desenvolvimento das ciências da informação e a crise dos Welfare States,
veremos que as instituições universitárias latino-americanas são profundamente
afetadas por essas transformações estruturais.
A partir da década de 50 surge na América Latina um
fenômeno novo que modificará as condições estruturais da universidade. Durante
as décadas passadas deu-se de maneira quase imperceptível a passagem da
universidade de elite tradicional para um sistema mais diferenciado de composição
acadêmica e interesses diversificados, desmonopolizando a instituições que
oferecem formação superior e os setores sociais que constituem sua demanda. Esse processo de
crescimento institucional caracteriza-se basicamente pela ampliação da oferta
institucional e diversificação dos setores sociais atendidos.
Esse processo
de ampliação da oferta nas
universidades latino-americanas realiza-se por meio do aumento da base
institucional, da “massificação” e da expansão do corpo docente. O contexto que
estamos observando, no conjunto da região,apresenta algumas particularidades
ligadas ao país de origem, no que se refere às orientações e estratégias que os
diferentes atores e grupos sociais utilizaram em cada situação nacional. Vale
dizer que a emergência dos modernos sistemas de educação superior foi
relativamente simuntânea e melhante em seus traços gerais.
Entretanto, as particularidades nacionais aparecem a
edida que se apresentam as variações dos componentes ou setores do sistema,
dadas pelas mudanças sócioeconômicas
pós-segunda gerra mndial: modernização do aparelho produtivo, urbanização,
crescimento da oferta da educação básica, emergência dos setores médios,
cultura de massas etc.
A UnB
foi concebida com a intenção de se
tornar a melhor experiência educacional
da América Latina. Pretendia-se gerar, através dela, uma comunidade de
pesquisadores capazes de diagnosticar problemas e oferecer soluções à sociedade
brasileira. Segundo depoimento de Darcy Ribeiro, a UnB nasceu como uma fundação. Era, portanto,
uma universidade autônoma e se pretendia que nela nenhuma pessoa fosse discriminada por convicções políticas
ou religiosas. Sendo assim, Darcy Ribeiro(1991) pensava a universidade da
seguinte forma:
A Universidade de que precisamos,
antes de existir como um fato no mundo das coisas, deve existir como projeto,
uma utopia, no mundo das idéias. Nossa tarefa, pois, consiste em definir as
linhas básicas deste projeto utópico, cuja formulação deverá ser
suficientemente clara e atraente para poder atuar como força mobilizadora na
luta pela reforma da estutura vigente. (p.172)
Neste ideário proposto por Darcy é recuperada a questão gramsciana sobre as
estruturas, pois, como sabemos, a
classe dominante elabora os fundamentos e os objetivos de como manter e expandir
o seu domínio, enquanto as classes dominadas dependendo das condições
objetivas, podem (e devem) elaborar concepções que questionam os fundamentos e
os objetivos traçados pela classe dominante, como afirma Gramsci:
O conceito
de homem não é um conceito abstrato, a-histórico; pelo contrário, é um conceito
concreto. Nesta concepção o homem não se define por uma natureza humana dada,
universal, mas como um devir histórico que se faz, se produz pelo trabalho. A
pergunta concreta, histórica, que põe adequadamente a apreensão do conceito de
homem não é, pois, o que é o homem, mas como é produzido o homem. O homem
concreto é concebido, então, como uma síntese das relações sociais que ele
estabelece na produção de sua existência. (1978a, p.38)
Desta maneira, os homens produzem idéias ou
representações pelas quais procuram compreender e explicar sua própria vida
individual, social, suas relações com a natureza e com o sobrenatural. Essas
idéias ou representações, no entanto, tenderão a esconder dos homens o modo
real por intermédio do qual suas relações sociais foram produzidas, assim como,
a origem das formas sociais de exploração econômica e de dominação política.
A América Latina tem, hoje,
centenas de universidades. Elas vão
desde enormes organizações com muitas faculdades e dezenas de milhares de
estudantes, cobrindo quase todos os campos do saber moderno, até modestas
aglomerações de precaríssimas escolas auto-designadas universidades. Apesar
desta diversidade de dimensões, complexidade e nível, todas se inscrevem no
mesmo quadro estrutural básico, melhor ou pior cristalizado aqui ou ali, em
toda a parte alterado pelos coloridos, mas configurando essencialmente o mesmo
modelo.
Em uma
perspectiva mais aprofundada, Darcy Ribeiro (1991) possui a seguinte concepção
sobre o futuro das universisdades:
As universidades que atuarem como simples guardiãs do
saber tradicional só poderão sobreviver enquanto suas sociedades se mantiverem
estagnadas. Entretanto, quando estas começarem a mudar, a universidade também
se verá desafiada a alterar suas formas para servir às novas forças sociais. Se
não o fizer provocará o florescimento do novo saber fora de seu perímetro
acabando assaltada e desfigurada pelos mais capazes de expressá-lo. (p.173)
A estrutura de Universidade
Necessária planejada por Darcy tinha por base desempenhar as
seguintes funções: prover um corpo explícito de alternativas e opções para o
planejamento da renovação estrutural de seus orgãos, atuar como um ponto de
referência para o diagnóstico e a critica das estruturas vigentes, oferecer uma
tabela de valores para avaliar a eficácia e importância de cada projeto parcial
de mudança que a universidade se disponha realizar; contrapor à universidade
real a universidade necessária e de formular um projeto especifico de
transição progressiva de uma à outra. E,
por fim, opor aos projetos de colonização cultural e de peretuação do
subdesenvolvimento e da dependência (através da modernização reflexa), um projeto próprio que satisfaça, no âmbito
universitário, os pressupostos para o
desenvolvimento autônomo da nação.
Logo, a
utopia da Universidade Necessária latino-america
significa um projeto urgente, pois se
nada for feito continuaremos presos a velha ordem. De maneira que os agrônomos e veterinários continuarão
servindo aos latifundiários, os médicos diplomados cuidando esmeradamente da
saúde das elites, os administradores, economistas, contadores defendendo os
interesses privados, quer diretamente nas empresas privadas quer na qualidade
de tecnocratas, ocupando postos de comando na estrutura de poder oligárquico,
os educadores instruindo os filhos de famílias
as camadas médias e altas, mas incapazes de atender à população em
geral, e, por fim, os engenheiros formados para operar uma tecnologia, não
apenas importada, como posta a serviço do enriquecimento de um patronato
empresarial indiferente aos problemas nacionais e sociais. Dentro deste quadro, as pesquisas devem
apontar para uma nova estruturação da
Universidade atual. No entanto, poderemos realizar esse projeto coletivo
politizando (no sentido da politica enquanto deliberação coletiva) a questão da
universidade pública e republicana,
garantidora da res(coisa) pública. Como afirma o próprio Darcy Ribeiro (1991):
A Universidade necessária deve preparar novas
modalidades de especialistas que correspondam aos requisitos da renovação
social e, sobretudo, para infundir nos futuros profissionais novos tipos de
lealdade orientada para as tarefas de edificação de uma sociedade solidária.
Isto jamais se consiguirá despolitizando a Universidade, e, sim,
contrapolitizando-a para que sirva aos interesses da grande maioria. (p.266)
Considerações finais
Como
palavras finais, entendemos que o exercício da democracia é a luta permanente
dos sujeitos contra uma lógica opressora e limitadora das liberdades coletivas.
Desta forma, é vital alertar que se o projeto de Universidade pública e
repúblicana, principalmente na América
Latina, não se constituir em um projeto político de nação, estaremos reforçando
o atual jogo social restrito ainda, a um pequenos grupo de “doutores”.
Para a construção de uma Universidade Necessária,
parece que a questão central,passa pela
desgastada e conhecida via democrática. Com a sua prioriza nação torna-se
possível estabelecer o campo de conflito. Se por democracia, se entende o
funcionamento dos orgãos de representação e deliberação políticas, seu
exercício fica limitado apenas aos partidos e às instâncias oficiais, do
legislativo e do executivo.
No entanto, se por
democracia se entende o pleno exercício da cidadania, há um lugar central para
a participação cidadã e suas representações coletivas, a política transborda
dos limitas das instituições, permeando todo o tecido social. Desta forma,
podendo criar novas formas de relação governo e sociedade, a partir de novas
instâncias de participação que efetivamente democratizam a democracia.
Nao se trata de uma nova
discussão, é preciso reconhecer que a
democracia, enquanto exercício de liberdade, promoção da igualdade e da justiça
social, nunca se concretizou historicamente, no Brasil, em seu sentido pleno.
Tendo se mantido em setores sociais restritos e sua ampliação sempre dependeu
das pressões e mobilizações sociais.
Logo, o governo sem a
participação efetiva das camadas populares, acaba por ser um instrumento de
defesa da propriedade privada, isto é, defende os que têm algum patrimônio contra a grande maioria que nada possui. Assim, a política passa a ser
instrumentalizada no sentido de atender aos interesses privatistas, o que vem
ocorrendo no ensino superior brasileiro.
Apesar dos ventos liberais
estarem, ainda, fortes, o ressignificado da democracia está em disputa. A
América Latina se apresenta como o território mais propício para experiências
de democratização que aportem elementos para (re)pensar o futuro, para a
construção de uma nova agenda planetária. A grande diferença com relação a
outras regiões do mundo é a importância que
nas últimas
décadas têm representado na América Latina as organizações populares e os movimentos
sociais.
Este
campo está se mobilizando, articulando e integrando um amplo conjunto de entidades e
movimentos, com uma trajetória de mais de três décadas, e que recentemente vem
incorporando sempre novos atores, como os movimentos ecológicos, os movimentos
de mulheres e os movimentos indígenas.
Estas
forças sociais não se pautam pela lógica do mercado. Elas, ao buscarem a
afirmação dos interesses da maioria, têm um claro interesse por um Estado
forte, já que este é o principal lugar onde podem inscrever e
fazer valer seus direitos de cidadania, o único locus capaz de garantir
ao conjunto da população uma ampla gama de direitos civis.
O Estado
não atua de forma neutra, pelo contrário ele age implacavelmente como um Estado
de Classe. Para exemplificar, basta observarmos a questão das greves onde o
Estado tem assumido sistematicamente os interesses da classe patronal ou na
educação com a privatização intencional do ensino superior (atualmente no
Brasil temos mais de 70% do ensino superior concentrado na esfera privada), onde
tivemos uma politica traçada pelo Estado e implementada pelo Conselho Federal
(hoje, Nacional) de Educação que
patrocinou, através de sucessivas autorizações e reconhecimentos, este processo
de privatização.
Finalizando acreditamos que
o processo democrático requer um debate público vigoroso, não apenas a
socialização das informações. Obviamente que o amplo acesso à informação é
importante, mas não é
garantidor da conquista de direitos iguais e maior justiça social.
Portanto, em nossos estudos
percebemos que somente com a retomada da discussão sobre a democratização
do ensino
superior, principalmente, na Grande Pátria Latino-americana, poderemos visualizar no
horizonte perspectivas mais positivas para a educação pública-repblicana em meio a atual complexidade da
sociedade contemporânea.
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_____________. Educação e Universidade. (1988) Rio
de Janeiro: EdUFRJ.
[1]
Além do redator Fernando de Azevedo, assinaram o documento: Afrânio Peixoto, A.
de Sampaio Dória, J. Frota Pessoa, Anísio Teixeira, M. Lourenço Filho, Roquette
Pinto, Júlio de Mesquita Filho, Raul Briquet, Mario Casassanta, Delgado de
Carvalho, Ferreira de Almeida Júnior, J. P. Fontenelle, Roldão Lopes de Barros,
Noemi da Silveira, Hermes Lima, Atílio Vivacqua, Francisco Venâncio Filho, Paulo
Maranhão, Cecília Meirelles, Edgar Sussekind de Mendonça, Armanda Álvaro
Alberto, Garcia de Resende, C. Nóbrega da Cunha, Paschoal Leme e Raul Gomes.
[2]
John Dewey, seguindo na tradição empirista inglesa, transformou o pragmatismo
antecedente em instrumentalismo, fundando um colégio experimental calcado
pedagogicamente nesses princípios (MARTINS FILHO. 1997, P.291)
[3]
A Escola Nova, inspirada em grande medida nos avanços do movimento educacional
norte-americano e de outros países europeus, teve grande repercussão no Brasil.
As idéias que lhe deram corpo foram sempre inspirados na concepção de
aprendizado do aluno por si mesmo, por sua capacidade de observação, de
experimentação, tudo isso orientado e estimulado por profissionais da educação
que deveriam ser treinados especialmente para esse fim. Duvidando dos métodos
convencionais acabava questionando toda uma maneira convencional do agir
pedagógico. (BOMENY, Helena. Os intelectuais da
educação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.43)