quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A OPERACIONALIZAÇÃO DA HEGEMONIA NEOLIBERAL E A SUA PROJEÇÃO SOCIAL


GT I: Direitos Humanos e Criminalização da questão social na
América Latina:  Hegemonia neoliberal e questão social

A operacionalização da hegemonia neoliberal e a sua projeção social
Silvio Claudio Souza[1]
Lia Ciomar Macedo de Faria[2]


Não é mistério para ninguém que esta época tão especial, na qual o capitalismo experimentou uma reestruturação regressiva em escala planetária, esteja dominada por uma ideologia: o neoliberalismo. Assim como no passado até os líderes mais despóticos e autoritários não deixavam de exaltar o valor da democracia, em nosso tempo os governantes parecem competir num concurso para ver quem declara com mais afinco a sua adesão aos princípios do livre-mercado.
Atilio Borón

Introdução

No presente trabalho elucidamos algumas características do modelo teórico neoliberal, buscando em alguns autores dos séculos XVIII e XIX as raízes históricas do pensamento liberal. Uma vez definida essa “origem”, estudamos as condições em que esse paradigma edifica sua hegemonia tanto nos países centrais como nos países periféricos.
Torna-se importante destacar que em um processo supostamente globalizante, o movimento neoliberal conseguiu alcançar um êxito político e ideológico com o qual seus fundadores talvez jamais pudessem sonhar.  A partir da disseminação da simples idéia de que não há alternativas para seus princípios e que todos, negando ou confessando, devem aceitar o novo modelo. As análises aqui desenvolvidas visam compreender como se dá a operacionalização de tal “concepção de mundo” e a sua projeção social.

A genealogia do projeto liberal

O liberalismo em sua versão “retocada” sustenta, no plano econômico o ponto de vista de que o Estado não deve interferir na iniciativa individual limitando-se a garantir a segurança e a educação dos cidadãos. Assim sendo, a concorrência e as aptidões pessoais se encarregariam de harmonizar como uma “mão invisível” a vida em sociedade.
            Por outro lado, no plano político a doutrina liberal defende o direito de representação dos indivíduos sustentando que neles e não no poder dos reis encontra-se a soberania. Esta é entendida como o direito de organizar a nação a partir de uma lei básica – a Constituição. Desta forma, o alcance da importância da representação traçou uma linha divisória entre liberalismo e democracia ao longo do século XIX.
Logo, as correntes democráticas defendiam o sufrágio universal, ou seja, o direito de representação conferido a todos os cidadãos de um país, independentemente de condição social, sexo, cor ou religião. Enquanto que os liberais trataram, em regra, de restringir a representação segundo critérios sobretudo econômicos: para eles só os proprietários com um certo nível de renda poderiam votar ou ser votados.
O marco do liberalismo econômico é associado a Adam Smith(1983)  especificamente, na obra A riqueza das Nações ((1776) :

Uma vez eliminados inteiramente todos os sistemas, sejam eles preferenciais ou de restrições, impõe-se por si mesmo o sistema óbvio e simples da liberdade natural. Deixa-se a cada qual, enquanto não violar as leis da justiça, perfeita liberdade de ir em busca de seu próprio interesse, a seu próprio modo, e fazer com que tanto seu trabalho como seu capital concorram com os de qualquer outra pessoa ou categoria de pessoas. (p.47)


A doutrina formulada pelo autor serviu de substrato ideológico às revoluções anti-absolutistas que ocorreram na Europa (Inglaterra e França) ao longo dos séculos XVII e XVIII e à luta de independência dos Estados Unidos da América, correspondendo aos anseios de poder da burguesia, que consolidava sua força econômica ante uma aristocracia em decadência, amparada até então pelo absolutismo monárquico.
Segundo a doutrina liberal, a procura do lucro e a motivação do interesse próprio são inclinações fundamentais da natureza do homem. Tais perspectivas estimulam o empenho e o engenho dos agentes, recompensa a poupança, a abstinência presente e remuneram o investimento. Além disso, premiam a iniciativa criadora incitando ao trabalho e à inovação. Como resultado cria-se um sistema ordenador e coordenador das ações humanas identificadas com ofertas e demandas mediadas por um mecanismo de preços.
Deste modo o novo sistema social revelaria de modo espontâneo e incontestável de um lado, as necessidades de cada um e de todos os indivíduos e, por outro lado, também indicaria a eficácia da empresa e dos empreendedores sancionando as escolhas individuais e atribuindo-lhes valores negativos ou positivos.
Smith (1983) afirma a respeito das virtudes do mercado que:

Assim é que os interesses e os sentimentos privados dos indivíduos os induzem a converter seu capital para as aplicações que, em casos ordinários, são as mais vantajosas para a sociedade. Sem qualquer intervenção da lei, os interesses e os sentimentos privados das pessoas naturalmente as levam a dividir e distribuir o capital de cada sociedade entre todas as diversas aplicações nela efetuadas, na medida do possível, na proporção mais condizente com o interesse de toda a sociedade. (p.104)

Ainda a respeito, para batizar esse aparente milagre, Smith cunhou uma expressão que ficaria famosa, a “mão invisível”.  Em 1817, David Ricardo (1982) generalizaria esse argumento estendendo-o para o conjunto da sociedade, ao afirmar que a divisão social do trabalho ganha a forma mais ampla na “Teoria das vantagens comparativas” resultante de uma especialização “natural” dos países ao longo do processo de divisão do trabalho. Portanto, para Ricardo (1982):

Num sistema comercial perfeitamente livre, cada país naturalmente dedica seu capital e seu trabalho à atividade que lhe seja mais benéfica. Essa busca de vantagem individual está admiravelmente associada ao bem universal do conjunto dos países. Estimulando a dedicação ao trabalho, recompensando a engenhosidade e propiciando o uso mais eficaz das potencialidades proporcionadas pela  natureza, distribui-se o trabalho de modo mais eficiente e mais econômico.(p.84)

Mais uma vez afirma-se que o mercado é o melhor caminho para gerar eficiência, justiça e riqueza. Eficiência, porque propicia o uso mais eficaz das potencialidades proporcionadas pela natureza, distribui o trabalho de modo mais econômico. Justiça, porque estimula a dedicação ao trabalho e recompensa a engenhosidade.
Segundo Noam Chomsky (1999), Ricardo teria refletido o resíduo da era pré-capitalista, assinalando que:

No começo do século XIX, Ricardo estava refletindo o resíduo da era pré-capitalista. A lógica do empreendimento capitalista é: você não deve ter sentimentos humanos. Você deve apenas tentar maximizar sua própria riqueza e poder. Por outro lado, a idéia de que os empreendedores capitalistas algum dia pensaram que deveriam ser sujeitados à disciplina de mercado é ridícula. Você usa o poder do Estado tanto quanto pode.Tudo isso dissolveu-se sob o impacto de uma espécie de ideologia capitalista hipócrita, que significa capitalismo para você, mas proteção para mim.(p.116)
                       

            Pode-se então observar que a argumentação liberal para que o mundo seja mais livre, justo e rico, é necessário que a disciplina anônima e invisível da concorrência substitua a disciplina visível das hierarquias arcaicas. Sendo assim, esse paradigma desdobrou-se em dois grandes princípios programáticos: o primeiro seria que a procura do interesse próprio conduz ao ajustamento entre os indivíduos e a uma determinada harmonização dos diferentes esforços e vontades. Delineia-se a convicção na existência de “leis econômicas” e que as ações intencionais das pessoas produzem, de modo não intencional, regularidades semelhantes às leis de um sistema físico. O segundo princípio seria que o poder político deve ser cuidadosamente limitado pela lei.
            Os princípios aqui enumerados são os fundamentos assumidos pelos liberais no sentido de limitar a intervenção do poder político (as ações do soberano, seja ele o rei ou o parlamento) para permitir que os indivíduos vivam como bem entendam.Cabendo destacar a defesa das liberdades individuais, a crítica da intervenção estatal, o elogio das virtudes reguladoras do mercado. Também a defesa da propriedade privada tem esse sentido, sendo apresentada como uma garantia para a independência do indivíduo perante a tirania dos soberanos políticos.
            No século XIX, o ideário liberal aproxima-se, cada vez mais, de correntes conservadoras e tenta afirmar e reforçar aquelas restrições. Por um lado, procura reduzir a presença do soberano político na sociedade, limitando e/ou dirigindo estritamente as intervenções do Estado na economia. Por outro lado, busca reduzir o círculo dos indivíduos aos quais é permitida a intervenção sobre o Estado – daí a luta dos liberais contra o sufrágio universal e outras manifestações políticas das massas populares.
            No final do século XIX, esse ideário liberal foi aprofundado e radicalizado por Herbert Spencer que, em Indivíduo contra o Estado (     ),  defende o sistema da concorrência como uma espécie de “seleção natural” dos mais aptos, numa perspectiva fundante do chamado darwinismo social. Spencer ataca duramente a democracia, a intervenção estatal na economia e a criação de políticas sociais. Apoiando-se em Charles Darwin (1809-1882), transplanta para a vida econômico-social a teoria da seleção natural, segundo a qual os menos aptos tenderiam a desaparecer.
A intervenção do Estado no “organismo” social – segundo os seguidores de Spencer – seria contrária à evolução natural e, a empresa monopolista (principal característica do capitalismo moderno) resultaria do processo de seleção na vida econômica e seria benéfica à medida que afastaria os menos aptos.  Algumas idéias de Spencer seriam depois retomadas, quase literalmente, pelos autores neoliberais contemporâneos.


Da ponte liberal aos discursos neoliberais


Na segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Europa passou a receber recursos dos EUA, através do Plano Marshall[3], para a reconstrução de sua economia devastada pelo conflito e, naquele momento, “iniciou-se” o Estado de bem-estar social (Welfare State[4]). O principal objetivo do Estado de bem-estar social era restabelecer a base produtiva destruída pela guerra e garantir a acumulação do capital, ainda que com diminuição da margem de lucro.
Nesse modelo, a relação capital-trabalho é mediada pelo Estado, que controlando e minimizando os conflitos de classe, ainda, cede às pressões dos trabalhadores por melhores condições de vida, por motivos estratégicos, haja vista o contexto ideológico da Guerra Fria.
Entretanto, o caráter redistributivo de capital dessas políticas públicas tornou-se antagônico aos interesses capitalistas de acumulação.  Perry Anderson (apud Sader, 1995) analisa essa questão da seguinte forma:


Fenômeno distinto do simples liberalismo clássico do século XIX. O neoliberalismo nasceu logo depois da Segunda Guerra Mundial, na Europa e na América do Norte onde imperava o capitalismo. Foi uma reação teórica e política contra o Estado intervencionista e de bem-estar. Seu texto de origem é “O caminho da Servidão”, de F. A. Hayek, escrito em 1944, e trata-se de um ataque a qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte do Estado. (p.9)


No interior da construção desse “novo paradigma” outros poderes econômicos surgiram no cenário internacional, representando os interesses dos grandes bancos, os quais acumularam grande liquidez com os petrodólares[5].  Nesse processo dinâmico de forças, o capitalismo financeiro passou a ditar as regras de distribuição e aplicação do capital.
Dentro desse movimento econômico-financeiro, as idéias neoliberais ganharam força e começaram a ser implantadas em países como a Inglaterra de Margaret Thatcher (1979) e os Estados Unidos da América de Ronald Reagan (1980), entre outros. Iniciou-se, portanto, a substituição do Estado intervencionista pelo “Estado mínimo”, assim como a difusão de que a única opção para a sociedade seria a submissão à lógica do mercado. 
Com relação à expressão “economia de mercado” é importante destacar que os Estados Nacionais estão sendo influenciados direta ou indiretamente por 200 empresas transnacionais[6], isto significa dizer que a esfera pública (Estado) fica submetida às corporações empresariais que são da esfera privada e objetivam seus interesses privados.
Ao contrário do que pensam alguns, a multinacional não é uma “distorção” do sistema capitalista, mas uma conseqüência lógica de suas principais e históricas características: acumulação e apropriação (e, portanto, expansão). Para implementá-las, a livre concorrência foi importante em certo estágio, mas atualmente não passa de um conceito ultrapassado em função da própria necessidade de expansão do capitalismo.
Portanto, o desenvolvimento impressionante das forças produtivas e da concentração do capital para atender às exigências expansionistas do sistema, fez com que o monopólio se tornasse uma condição lógica e obrigatória.
Sendo assim, podemos levantar o seguinte questionamento: qual o espaço de manobra que resta aos Estados Nacionais (esfera pública) nesta lógica de “economia de mercado” (esfera privada) desregulada e sem controle público?   Para pensarmos essa questão, Emir Sader (1996) indica o seguinte:


O mega-especulador George Soros, o atual grande herói do capital até que um novo escândalo o conduza a uma prisão qualquer, afirma que “os mercados votam, votam todos os dias, e que isso é bom”. O que significa um esvaziamento dos direitos de cidadania, a favor do consumidor, do especulador. Só que os cidadãos dispõem, cada um, de um título de eleitor, enquanto que, no mercado, nas bolsas, contam os recursos que cada um tem, o que diferencia radicalmente os indivíduos.(p.16)


            É importante destacar as limitações da esfera pública na economia de mercado, basta lembrarmos que na América Latina os países periféricos (com a conivência das elites locais) sujeitaram-se às imposições do mercado financeiro internacional, o qual exigiu através de um ajuste econômico dos países devedores, o pagamento de suas dívidas externas, independentemente de suas condições para tal. Assim sendo, sem instituições sociais fortes como a dos países centrais, a América Latina iniciou uma trajetória (de sacrifícios sociais) que comprometeu seriamente as ações de seus Estados Nacionais.

        
A operacionalização do projeto neoliberal

Em fins de 1995, numa reunião a portas fechadas, 500 representantes da elite mundial debateram as perspectivas do mundo para o século 21. A avaliação foi devastadora: bastará 20% da força de trabalho para fazer girar a roda da economia. Os restantes 80% deverão contentar-se com pouco mais do que pão e circo. Desde já, nações tidas como prósperas aproximam-se dessa visão dantesca, com seus milhões de desempregados e excluídos.                                                          Martin e Schumann

No modo de produção capitalista, a partir de 1980, o capital se dinamiza e ocupa outras esferas sociais, até então de domínio do espaço público. Paralelamente a internacionalização do capital produtivo foi se intensificando ao final do século XX e definiu um “ser social” para esse novo paradigma de acumulação. Junto a criação desse “ser social” surge a necessidade da mercantilização das relações sociais através das finanças (capital financeiro e suas estruturas projetadas FMI, BIRD e OMC) e, no plano político, da Organização  das  Nações  Unidas  (ONU).
Como vimos, a nova estruturação é realizada de forma diferenciada no mundo, entretanto, sempre com a mesma finalidade, isto é, a construção de um “ser social” fragmentado e despolitizado. Para a consolidação desse novo modelo as instituições sociais passam a se transformar em organizações sociais como, por exemplo, as organizações não-governamentais. Destacamos que essa transformação enfraqueceu as instituições públicas e vulnerabilizou a sociedade civil.
Dentro dessa perspectiva, o Consenso de Washington[7] faz parte de uma estratégia de homogeneização das economias periféricas com  intuito de transformar as estruturas sociais. Em seguida, o processo de materialização de suas diretrizes, de modo geral, ocorreu através dos técnicos das agências multilaterais (FMI, BIRD e OMC) e de economistas universitários estadunidenses com orientação da “Escola de Chicago[8]. Nos países com “corpos burocráticos” mais estruturados, a influência se realizou através da orientação dos economistas com grande capacidade política e cultural, que colocaram na agenda desses países, através de suas elites locais, o novo ideário conservador.
A partir dessa concepção de mundo tendem a ser suprimidas práticas como liberdade e igualdade em favor de outras como mercado, consumo e qualidade total. Tal supressão acarreta o aparecimento de uma nova “realidade”, por meio de uma linguagem definida sob um pensamento único que nos aprisiona na idéia de que essa é a única realidade possível e da qual não poderemos escapar.  
Paulo Freire (1996) apontava a tentativa do discurso neoliberal em “naturalizar” a realidade social:

A ideologia fatalista, imobilizante que anima o discurso neoliberal anda solta no mundo. Com ares de pós-modernidade, insiste em convencer-nos de que nada podemos contra a realidade social que, de histórica e cultural, passa a ser ou a virar “quase natural”. Frases como “a realidade é assim mesmo, que podemos fazer?” ou “o desemprego no mundo é uma fatalidade do fim do século” expressam bem o fatalismo desta ideologia e sua indiscutível vontade imobilizadora. Do ponto de vista de tal ideologia, só há uma saída para a prática educativa: adaptar o educando a esta realidade que não pode ser mudada.(p.22)

Desta forma, a compreensão que o indivíduo passa a ter da sociedade é filtrada através dos óculos do “Deus-mercado”, impedindo que o indivíduo perceba a relação indivíduo-sociedade como uma relação política. Assim, o projeto ideológico neoliberal tem como objetivo a criação de um sujeito performático, descontextualizado e despolitizado, onde  o que importa é a sua capacidade de competição e de consumo individual.
Tal ideologia forja a construção de discursos - “única realidade”, “sacralização do mercado”, “naturalização da lógica econômica”, entre outros, tentando encaminhar os indivíduos para uma rendição a esses “pressupostos óbvios”, conforme menciona Christophe Dejours(1999:94): “Opor-se à ordem econômica seria não apenas uma tolice, mas também sinal de obscurantismo”.
Neste contexto, é importante frisar que a sociedade é uma construção que se faz no campo político e não somente na esfera do “mercado”, portanto, gravitar um torno de uma só dimensão é sacrificar o projeto de democracia. Esse processo é contrário ao processo de democratização da sociedade, como nos aponta Gilberto Dupas(2003:11): “a democracia passa a ser ameaçada em duas frentes principais: o individualismo extremo, que abandona a vida social aos aparelhos de gestão e aos mecanismos de mercado; e a desagregação das sociedades política e civil.” 
No sentido posto acima, essas mudanças alteram as estruturas sociais, transformando as instituições e dentro delas as práticas sociais de seus sujeitos, e assim, forjando gerações dentro de pressupostos mercantis, onde a participação política e democrática do indivíduo na sociedade perdem o sentido, pois a realidade é um dado cristalizado e, dentro desse “ideário conservador”, não cabe a ele uma atitude de transformação através de uma participação coletiva. Neste contexto, a política passa a ser feita pelas grandes corporações e como o cidadão não vota nessas empresas, a política escapa do âmbito da cidadania. Assim, o voto também acaba por ser esvaziado de sua real importância democrática.
A política foi privatizada e as conseqüências dessa nova realidade são gravíssimas: a principal é a política fora do alcance dos cidadãos. Ela está na esfera privada, uma ação entre alguns agentes. O presente cenário aponta para uma conjuntura em que se fragiliza a democracia e desrepublicaniza a república. . .



CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo aqui apresentado pretendeu sistematizar alguns elementos que facilitassem o entendimento do ideário liberal. Esse pensamento nasce revolucionando a vida dos homens, pois além de colocá-los no centro do universo, retoma o modelo de vida política instituindo a idéia de Estado moderno.
A seguir, procuramos destacar os aspectos contraditórios da “hegemonia neoliberal” e percebemos que o extremo individualismo desse modelo indica um desfavorecimento das políticas democráticas para o conjunto da sociedade.
Aprofundando a nossa investigação podemos observar que o neoliberalismo se “mostra” como um paradigma que pode ser entendido por meio de algumas características dentre as quais podemos destacar a prioridade absoluta para os direitos do capital via ampliação dos direitos dos credores. Por um lado, o respeito aos contratos reforça as vantagens para o capital e por outro lado, as desvantagens para a democracia.
Nessa direção outras questões se colocam como, por exemplo, o ajuste fiscal para garantir o pagamento pontual das obrigações do Estado com a dívida pública; como a mistificação das relações econômicas e responsabilização do indivíduo frente ao capital e os direitos dos trabalhadores tratados como privilégios.
Para finalizar essa imensa lista, não podemos deixar de lado a suposta responsabilização de fatores domésticos pelas crises cambiais tais como: ausência do "ajuste fiscal necessário", falhas de regulação dos sistemas financeiros, políticas monetárias "frouxas”, abertura de novos espaços para a valorização do capital e a transferência para o setor privado da área previdenciária, da saúde e da educação.
Além de poderoso e flexível, os paradigmas neoliberais são mistificadores na sua essência. Ao transferir todas as responsabilidades para o indivíduo isolado frente ao capital e para os países da periferia frente aos países centrais, apresenta demandas contraditórias entre si, como ajuste fiscal e liberdade para a movimentação de capitais.
Ao mesmo tempo em que despolitiza a macroeconomia, a pretexto de haver técnicas inequívocas, convive com enorme diversidade de políticas. Por outro lado, apresenta-se como antiestatal, mas depende da iniciativa do Estado para ser implantado e para ser gerido.
O que está no interior dessa operacionalização é que tudo aponta para que não seja uma força econômica global impessoal, mas uma estratégia econômica enraizada nos interesses da alta burguesia e das corporações.
Considerando que o liberalismo combatia o Estado Absolutista e defendia, em sua origem, a liberdade individual, o direito inalienável à propriedade, o livre comércio e a não-intervenção do Estado na economia e, sendo assim, continha nessa origem  um “germe democrático”, observamos que no século XX, a partir dos anos setenta, o liberalismo em sua “versão” neoliberal,  combatendo tão fortemente o Estado, os governos e os espaços públicos, acabou tornando-se um pensamento “antidemocrático”.
Hoje, essa estruturação de despolitização dos espaços, vem sendo realizada de forma diferenciada no mundo, em função da tentativa de se construir um “ser social” fragmentado e despolitizado, o que vem levando ao enfraquecimento das instituições públicas e a vulnerabilização dos Estados nacionais. Dentro desta lógica, entendemos que na questão estatal (público), o que temos é um “campo de disputas”, dominado por interesses privados. Assim, o privado refere-se aos interesses mercantis que não constituíram processos de desestatização em favor dos indivíduos, mas, pelo contrário, de favorecimento das grandes corporações privadas. Desta forma, o que se percebe no “reino do mercado” é a negação da cidadania e do indivíduo como um sujeito de direitos. 
Em tempos de “pensamento único”, como recuperar os discursos de liberdade, igualdade e fraternidade, embutidos nos velhos ideais republicanos?


Referências Bibliográficas


BELLUZZO, Luiz Gonzaga. Carta Capital. São Paulo: Confiança, nr. 195, 2002.

BRÍCIO, Japiassu e AGUIAR, Renato. O mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Terceiro Milênio, 1999.

CHOMSKY, Noam. Brasil de Fato.  São Paulo: nr. 44, 07 janeiro 04.

DEJOURS, Christophe. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: FGV, 1999.

DUPAS, Gilberto. Tensões contemporâneas entre o público e o privado.  São Paulo: Paz e Terra, 2003.

FIORI, José Luís. 60 lições dos 90: uma década de neoliberalismo. Rio de Janeiro: Record, 2001.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GONÇALVES,  Reinaldo. Ô abre-alas: a nova inserção do Brasil na economia mundial. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

JAPIASSU, Hilton. Desistir do Pensar ?  Nem Pensar ! Criando o Sentido da Vida num Mundo Funcional e Instrumental. São Paulo: Letras & Letras, 2001.

MARTIN, Hans-Peter e SCHUMANN, Harald. A Armadilha da Globalização.São Paulo: Globo, 1998.

RICARDO, David. Princípios de economia política e tributação. São Paulo: Abril, 1982.

SADER, Emir.(Org.)   Pós-Neoliberalismo:   as políticas sociais  e  o Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

SANDRONI, Paulo. Dicionário de economia e administração. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

SMITH, Adam. A riqueza das nações. São Paulo: Abril Cultural, 1983.




[1]  Prof. Silvio Claudio Souza (Mestre em Educação/UERJ) - Coordenador de Prática de Ensino do UERJ/CEDERJ, membro do Grupo de Pesquisa – Ideário Republicano e Educação Fluminense (PROPed/UERJ).

[2]   Profª. Lia Ciomar Macedo de Faria (Doutora em Educação/UFRJ) - Professora do Programa de Pós-graduação em Educação PROPed/UERJ -  Linha de Pesquisa: Instituições, Práticas educativas e História.

 


[3] O Plano Marshall foi o instrumento central na estratégia da contenção nos anos iniciais do antagonismo entre as superpotências (EUA e a URSS). Ele visava reconstruir economias de mercado saudáveis (produção capitalista) na Europa Ocidental e criar uma sólida muralha contra os partidos de esquerda (socialistas). Idealizado pelo Secretário de Estado George Marshall, em junho de 1947, o Plano Marshall constituía-se em  uma vasta injeção de dólares estadunidenses para combater o virtual colapso das economias européias do pós-guerra. (SANDRONI, 1996, p. 255)

[4]É importante destacar que a concepção embrionária de Welfare State ou Estado de bem-estar, remonta à época do chanceler da Prússia Otto Von Bismark, nomeado em 1862 e responsável pela unificação alemã.

[5]  Petrodólares é nome dado às divisas (geralmente em dólares dos Estados Unidos) provenientes da exportação de petróleo.  O termo difundiu-se em 1973, quando a OPEP(Organização dos Países Exportadores de Petróleo), entidade sob controle árabe, elevou de 3 para 12 dólares o preço do barril do petróleo, ocasionando um enorme afluxo de divisas para os Estados exportadores. Mas vários milhões desses petrodólares não encontraram aplicação dentro das limitadas estruturas econômicas de alguns países membros da OPEP e retornaram ao Ocidente, injetados nos bancos e grandes financeiras com sede nos países mais industrializados. Foi a origem da grande liquidez do mercado financeiro internacional, que durou até o fim dos anos setenta. (SANDRONI, 1996, p. 318)

[6] Estamos utilizando o conceito de empresa transnacional empregado por Reinaldo Gonçalves: “A empresa transnacional pode ser definida como a empresa de grande porte, que possui ativos em pelo menos dois países e tem um certo dinamismo tecnológico". (GONÇALVES,1994, p. 41). Considerando que em nosso planeta temos aproximadamente 200 países, aproveito para destacar a concentração da riqueza mundial por um grupo muito pequeno “... os três países economicamente mais poderosos respondem por 30% do comércio mundial; outros sete importantes países desenvolvidos representam outros 30%; 20 países em desenvolvimento, com níveis mais avançados de industrialização e acumulação de capital, respondem por 20%; e, finalmente, o “resto do mundo” (correspondendo a mais de uma centena de países) é responsável por 20% do comércio mundial” (Ibid., p.80).

[7] O termo “Washington Consensus” foi utilizado pela primeira vez pelo economista John Williamson, pesquisador do Institute for International Economics, um dos mais célebres “think tanks” (centro de geração de idéias) dos EUA.  Essa expressão foi usada para referir-se a um conjunto de diretrizes políticas e econômicas defendidas pelos burocratas dos EUA e das organizações multilaterais (FMI e BIRD) sediadas em Washington. Esse rigoroso “programa de ajuste econômico” foi assumido pelas elites locais como a única receita válida para superar o déficit público e estabilizar as convulsões econômicas e sociais da região. Esse núcleo de doutrinas que pretendia dar uma sustentação e legitimação discursiva funda-se num aparente acordo global que foi penetrando, capilarmente, no senso comum das administrações governamentais latino-americanas. (FIORI, 2001, p. 87)

[8] Escola de pensamento econômico monetarista, reunida em torno de Milton Friedman (1912 - ) e outros professores da Universidade de Chicago dos Estados Unidos da América, e que sustenta a possibilidade de manter-se a estabilidade de uma economia capitalista apenas por meio de medidas monetárias, baseadas nas forças espontâneas do mercado. Milton Friedman atuou como conselheiro econômico do governo chileno do general Pinochet, tornando conhecida do grande público a Escola de Chicago como inspiradora das recentes políticas econômicas recessivas, praticadas por governos autoritários sul-americanos.(SANDRONI, 1996, p. 151)

Nenhum comentário:

Postar um comentário